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Editora Pinus

Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa (Pe. Manuel Bernardes)

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Meditações sobre os principais mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa (Pe. Manuel Bernardes)

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Descrição Rápida



 

Exortação ao pio leitor
 
 § i
 
O seráfico padre S. Francisco teve a seguinte visão misteriosa: eram duas escadas lançadas da Terra ao Céu[1]; uma delas, vermelha, em que estava arrimado Cristo S. N.; outra, branca, em que estava a Sacratíssima Virgem sua Mãe. Muitos religiosos, ao exemplo e instância de seu Santo Padre, pretendiam subir animosamente pela escada vermelha; porém, não poucos deles, havendo já começado a subir, resvalavam e descaíam para trás: desgraça de que se lastimava e chorava muito o Santo. E o Senhor lhe disse então: Faz que os teus corram para minha Mãe, subindo pela escada branca. E o Santo, com clamor e espírito, começou a bradar-lhes: Irmãos, correi à escada branca e subi por ela. E os religiosos, obedecendo a essa voz, assim o faziam; e a soberana Virgem os recebia alegre e os introduzia no Céu.
Sobre esse caso, por ser de doutrina clara, verdadeira e proveitosa, fundarei eu agora a presente exortação aos meus leitores. Por nenhuma melhor via (digo com S. Fulgêncio) podem os homens subir a Deus, que por onde Deus se dignou baixar aos homens: Facta est Maria scala coelestis: quia per ipsam Deus descendit ad terras, ut per ipsam homines ascendere mereamur ad Coelos[2]. Bem sabemos e fielmente cremos e confessamos todos os filhos da Igreja Católica que essa escada foi Maria Santíssima S. N. Ela é aquela admirável Virgem, de quem tinha profetizado Isaías que pariria um filho, e ela mesma lhe chamaria Emanuel: Ecce Virgo concipiet, et pariet filium, et vocabit ipsa nomen eius Emmanuel[3]. Assim lê do rigor hebraico Galatino, e não sem mistério; porque Emmanuel quer dizer Deus conosco; e veio Deus, que infinitamente estava longe de nós por sua natureza, a estar intimamente conosco pela Encarnação; e a Senhora, de quem realmente tomou o Verbo carne humana, efetivamente lhe deu o nome de Deus conosco. Ela é a que vestiu com sua substância corporal ao Filho de Deus, e o alimentou e nutriu por nove meses em seu virginal ventre. Por essa porta Oriental saiu, sem abri-la, a tratar no mundo com os filhos de Adão. De seu leite e sangue, mudada a forma materna (que imediatamente antes tinha) na de menino, unida já hipostaticamente à forma Divina, se fez Carne e Sangue de Cristo, que nos remiu na Cruz e nos sustenta no Sacramento do Altar. Enfim, assim como para Deus não temos outro mediador (como diz o Apóstolo) senão a Cristo – Unus mediator Dei, et hominum, homo Christus Jesus[4] –, assim para Cristo não temos outra mais próxima e eficaz mediadora, como lhe chamam os Santos Padres, senão a Maria Santíssima S. N. e Mãe sua[5]. Esta, pois, é a escada branca; escada, porque serviu de descer Deus aos homens, e serve de subirem os homens a Deus; e escada branca, por sua inocência puríssima e candidez virginal.
Aos religiosos, pois, (debaixo do qual nome entendo agora todos os que aspiram a viver vida pia e reformada, fugindo do pecado e procurando as virtudes) sucede muitas vezes que põem unicamente o sentido na mortificação e penitência, na abstração das criaturas e silêncio; e na verdade bom é esse caminho, porque pretendem imitar a Cristo, o qual é a escada vermelha, pelo sangue de sua Paixão Sagrada, e os está convidando, e sendo-lhes causa não só efetiva, mas exemplar de seus santos exercícios, que são os degraus por onde sobem ao Céu. Porém, é tanta a fragilidade humana que necessitamos não só de sangue para nos alentar, mas também de leite para nos criar; não só de Pai para nos levar à sua imitação, mas também de Mãe para nos conduzir; não só de Mediador para Deus, que é Cristo seu Filho, mas também de Mediadora para Cristo, que é Maria sua Mãe Santíssima. E como nos esquecemos da devoção com essa Senhora, ou a não cultivamos amiúde, como filhinhos pequenos, e queremos subir por nosso pé, como já maiores, sucede não poucas vezes que, tropeçando, descaímos; e então se conhece, por experiência, como, para perseverar no caminho da virtude, é necessária mais assistência da graça divina do que nos parecia, e um espírito mais desarrimado de si próprio e mais dependente da proteção de pessoa fácil em dar entrada a miseráveis e em achá-la para com Deus, e que, não tendo ofício de julgar, o tenha próprio de interceder e compadecer-se. E qual é essa pessoa senão a Mãe de Deus, que é um quase-Deus diminuído e mitigado, em que as atividades e ardores do Sol se acham temperados com a frescura da Lua?
Importa logo que os fiéis nos passemos da escada vermelha para a branca: não porque hajamos de desamparar a meditação grave da Paixão do Senhor, senão porque a devemos acompanhar com a devoção suave de Maria Santíssima S. N., e de tal sorte apascentar-nos com o Sangue das chagas do Salvador que nos não descuidemos de criar-nos com o leite desta Mãe piedosa, como fazia seu grande devoto S. Bernardo: Hinc pascor a vulnere, hinc lactor ab ubere. E desse modo criaremos um espírito juntamente animoso e mais humilde, discreto e mais sincero, vigoroso e mais brando.
E como seja indubitável que, para ser qualquer objeto mais amado, primeiro deve ser mais conhecido – Nihil volitum, quin praecognitum –, segue-se que, para crescermos no amor à Virgem S. N., é necessário considerarmos mais devagar nas suas perfeições, dotes e prerrogativas, e nas obrigações grandíssimas em que todos lhe estamos, pelos benefícios que comumente nos está fazendo; porque ai do mundo, se Deus não tivera Mãe! Para assim o fazermos, há tantas razões que, ainda que dessa só matéria se compusessem grandes volumes, nunca poderíamos dar-lhe a avaliação condigna. Porém, tocaremos algumas das que respeitam particularmente a sujeitos que frequentam os santos exercícios, que nesta Congregação se praticam.
 
§ II
 
E seja a primeira. Porque, quando usamos de algum benefício em utilidade nossa, nos corre obrigação de ser lembrados e agradecidos ao Autor dele, e a Virgem Sacratíssima foi autora dos santos exercícios de oração mental por meio de seus servos Sto. Inácio de Loiola e S. Filipe Néri, aquele fundador da Companhia de Jesus, este da Congregação do Oratório, amigos ambos e contemporâneos em Roma. Que a Senhora foi autora daquele livrinho dos exercícios de Sto. Inácio, que tanto fruto têm feito na Igreja, consta de uma revelação feita pelo Arcanjo S. Gabriel à Venerável Virgem D. Marina de Escobar. E esses mesmos, quanto à substância, são os com que lucrou a Deus inumeráveis almas o glorioso S. Felipe, a quem a Mãe de Deus se dignou falar pessoalmente, e por cujo meio lhe foi influído esse espírito de oração, porta por onde entra o desengano das verdades sólidas e necessárias para a vida reformada; logo, é razão que, recebendo nós o dom da oração por mão da Sacratíssima Virgem, adoremos e beijemos essa mão com especial obséquio. Antes desse modo aproveitaremos mais na mesma oração, pois costumam as coisas ter o seu aumento por onde tiveram o seu princípio.
 
§ III
 
Segunda. Porque, para o caminho da vida espiritual, é mais conducente o andarmos em alegria: Servite Domino in laetitia[6]. Esse espírito dilata o coração, para se aturar melhor a carreira dos divinos mandamentos – Viam mandatorum tuorum cucurri cum dilatasti cor meum[7] –, como, pelo contrário, o espírito triste até os ossos seca – Spiritus tristis exiccat ossa[8] e é mais sujeito à desconfiança, escrúpulos e tentações, e mais próprio de hipócritas: Nolite fieri, sicut hypocritae tristes[9]. E essa particularidade tem a devoção com a Virgem, e a meditação de seus sagrados mistérios, que infunde alegria nos espíritos: Sicut laetantium omnium habitatio est in te[10]. Em aparecendo a memória dessa soberana Senhora na região do nosso interior, logo parece traz consigo novas de bom sucesso, ares de confiança, luz de serenidade. Nem parecerá bem, falando-se da Virgem, ficar alguém ainda triste: porque o seu nome somente basta para afugentar pesares: Tristatur aliquis? Continuo ad nomen Mariae cadit nubilum, serenum redit, disse Ricardo de São Lourenço.
No tempo em que o heresiarca Nestório, com sacrílega e blasfema língua, impugnava a glória da Virgem, negando-lhe o nome Theotocos, dizendo que não se havia de chamar Mãe de Deus, estava todo o povo da cidade de Éfeso esperando com grande suspensão às portas do sagrado Concílio[11], para saber o que tinham os padres dele determinado nesse ponto, os quais, quando, já à boca da noite, saíram do conclave e se publicou que o infeliz Nestório fora condenado, e anatematizado, e deposto do seu lugar, e que ficava definido com certeza de fé que a Virgem Maria era na verdade e se devia chamar Mãe de Deus: tal foi o alvoroço de todos que choravam de alegria e não faziam mais que entoar louvores a Deus e aclamar felicidades aos padres do Concílio e abraçar-se uns aos outros com exuberância de caridade cristã, e logo preveniram tochas para acompanhar a casa os conciliares, e até as mulheres saíram pelas ruas com caçoilas aromáticas; e toda a noite houve na cidade luminárias e sinais festivos de geral contentamento. Se alguém, neste passo, perguntar a si mesmo a causa dessa geral e intrínseca alegria, advertirá não ser outra senão porque aquela definição acreditava a honra e dignidade de Maria Santíssima, cujo amor está tão entranhado nos corações dos fiéis, que o mesmo é lembrar-nos que Deus tem Mãe do que apreendermos a causa de nossa alegria, a fonte de todos os nossos bens, e uma criatura sempre fácil e benigna para acudir a nossas misérias. Logo, a alma acostumada a contemplar em seus mistérios e perfeições andará devotamente alegre e humildemente confiada.
 
§ IV
 
Terceira. Porque, ordinariamente, todos os fiéis têm sua particular inclinação a algum Santo ou alguma Santa, fundada em motivos particulares, v. g., da pátria, ou do nome, ou dos milagres famosos que obrou, ou dos benefícios que recebeu; e a esse tal Santo costumam invocar em suas necessidades, oferecer os seus dons e frequentar as suas Igrejas. Tudo isso é louvável e meritório. Porém, muito mais razão é que toda essa devoção se una e reforce em dar honra e culto à Santa de todos os Santos, que é a Mãe de Deus, d’Ele mais amada e melhor ouvida que toda a Corte Celestial junta. Por essa sua admirável singularidade merece a Senhora esse singular afeto nosso e contínua memória, e suas excelências para com Deus não têm exemplo, seus benefícios para conosco não têm número. E assim como o Santíssimo Sacramento do Altar é relíquia viva da presença visível de Cristo neste mundo, que excede incomparavelmente a todas as relíquias dos Santos, e tem por autêntica o mesmo Evangelho e o testemunho de toda a Igreja Católica, assim a devoção com a Virgem Mãe excede as devoções de quaisquer Santos e Santas, não só pela dignidade do objeto, mas também pela prontidão e facilidade no despacho de nossas petições.
Logo, se havemos de rezar, rezemos a Nossa Senhora; se havemos de visitar alguma Igreja, seja dedicada em honra da Senhora, ou em qualquer outra busquemos e veneremos a sua imagem; se damos esmola, de melhor vontade a demos quando nos é pedida em louvor da Senhora; e o seu nome seja para nós um quase-conjuro ou adjuração, que nos obriga a deferir-lhe; se oramos, seja por mão da Senhora, e busquemos a sua presença no Empíreo à mão direita do Rei da Glória, onde assiste, apresentando-lhe nossos desejos pios e petições humildes; se comungamos, tenhamos particular e enternecida memória de que, também debaixo das espécies sacramentais, recebemos[12]Ambrósio a outro intento: Et si error, pietatis tamen error est[14]Ainda que errava, era erro pio, porque é piedade honrar os pais: Matrem considerate, matrem cogitate. E voltando ao nosso intento, tudo quanto obramos seja quanto nos for possível por mãos de Maria: Omnia per manus Mariae[15], logo abaixo das mãos de nosso Mediador Jesus Cristo: porque desse modo atalhamos mais e cansamos menos.: alguma parte daquela primeira substância da Virgem, que de suas puríssimas entranhas ministrou para encarar o Verbo Divino, e a substância com que o alimentou nove meses em seu ventre e todo o tempo que lhe deu leite a seus peitos, nutrindo aquele mesmo Corpo Divino que o Senhor sacramentou e que, já ressuscitado, sacramenta qualquer sacerdote. Se celebramos missa, seja quanto permitirem as rubricas ou as obrigações particulares em louvor da Senhora. E a esse propósito referirei aqui o que sucedeu a um sacerdote, que, por devoção da Senhora, sempre d'Ela dizia missa: do qual uso, acusado como ignorante ao bispo (que era S. Tomás de Cantuária), ele o suspendeu. Mas a Santíssima Virgem, invocada pelo sacerdote, pobre e aflito, lhe apareceu e disse: Vai, e da minha parte diz ao bispo que te restitua no grau. Senhora (replicou ele), eu sou desprezível, não hei de ter entrada. Tornou a Senhora: Eu te abrirei caminho: e para o bispo te crer, dir-lhe-ás por final que eu, tal dia, hora e lugar, remendando ele o cilício, eu lhe tinha mão nele de uma banda. Recebido o recado, admirou-se o Santo e disse ao sacerdote estas palavras, conforme as traz Cesário[13]: Eu te concedo digas missas só de Nossa Senhora, e roga por mim. Bem poderia lembrar-lhe no caso aquilo de Sto.
 
§ V
 
Quarta. Porque aos exercitantes da oração mental sucede às vezes padecerem de tentações e desconfianças acerca da sua predestinação: e na mesma devoção com a Virgem, acharão o antídoto desse veneno; porque é um dos sinais que há melhor assombrados da nossa salvação. Assim o afirmam os Santos Padres, fundando-se naquela Escritura dos Provérbios: Qui me invenerit, inveniet vitam, et hauriet salutem a Domino: Quem me achar, achará a vida e beberá do Senhor a salvação. E que coisa é ser devoto da Virgem, senão salvar-se? Sto. Anselmo diz: Sicut impossibile est, quod illi a quibus Virgo Maria oculos suae misericordiae avertit, salventur: ita necessarium est, quod hi, ad quos convertirit oculos suos, pro eis advocans, justificentur, el glorificentur[16]: Assim como é impossível que se salvem aqueles de quem desviou os olhos de sua misericórdia a Virgem Maria, assim é necessário que consigam a graça e a glória aqueles para quem esta Senhora voltou seus olhos misericordiosos. E confirma essa sentença com o que diz Sto. Epifânio da ave chamada charádrio, cuja oculta propriedade é que, se aparta os olhos do doente, é sinal que morre; mas se lhe põe os olhos, e o doente também os pode pôr na ave, é sinal que escapa. De S. Inácio Mártir, grande devoto da Senhora, se alega esta sentença: Numquam male peribit, qui genitrici Virgini devotus, sedulusque extiterit: Nunca acabará mal quem foi devoto da Virgem Mãe. S. Germão, patriarca de Constantinopla, diz absolutamente: Nullus est, qui salvus fiat, nisi per te o Virgo Sanctissima. Ninguém há que se salve senão por vós, ó Virgem Santíssima.
E concorda com aquele texto do Eclesiástico, que comumente se interpreta dessa Senhora: In plenitudine Sanctorum detentio mea[17]Detinet nimirum virtutes, ne fugiant: detinet merita, ne pereant: detinet daemones, ne noceant: detinet Filium, ne peccatores percutiat. Ante Mariam non fuit, qui sic detinere Domunim auderet, teste Isaia, qui dixit: Non est qui invocet nomen tuum, et teneat te[19].: Na plenitude dos Santos é a minha detença; isto é, encher o número dos Santos e acabar a perfeição da graça e glória de cada um é a minha detença, o meu emprego, a minha ocupação. Às quais palavras acrescenta S. Boaventura que a Virgem não somente se detém na plenitude dos Santos, senão que detém os Santos na plenitude, para que não se diminua: porque detém as virtudes deles, que não fujam; detém os seus merecimentos, que não se percam; detém os demônios, que não acometam e vençam; detém a seu Filho, que não mate os pecadores. Antes de Maria, não houve quem assim ousasse fazer detenças ao Senhor, conforme ao que disse Isaías[18]: Não há quem invoque o vosso nome e vos reporte. Mas ponho aqui as palavras do Santo, porque são dignas: B. Virgo non solum in plenitudine Sanctorum detinetur, sed etiam in plenitudine sanctos detinet, ne eorum plenitudo minuatur.
Considere agora quem lê, se deixará de ser certo o salvar-se a alma, em cujo bem a Virgem soberana detém as virtudes, para que nelas persevere; as tentações, para que nelas não caia; detém a seu Filho, para que não entre em contas com ela, quando não lhas pode dar boas; e em fazer essas detenças é toda a sua detença, enquanto o mundo dura e há tempo de salvar almas; e considerando isso, veja se é proveitoso e bem remunerado fazermos nós agora detença em honrar, servir, louvar e invocar a essa Senhora.
 
§ VI
 
Quinta. Porque o trabalho principal dos que frequentam os exercícios mentais é a perseverança neles. Para isso de continuar a santa oração, todos temos como Moisés as mãos pesadas e descaídas, e raros temos irmãos e companheiros que nos ajudem a sustentá-las como este teve a Aarão e Ur; antes nosso irmão, que é o corpo, e nosso companheiro, que é o mundo e o inimigo, são os que as derrubam e procuram decepar. Se todos os que principiaram esse exercício nele perseverassem até a morte, outra reforma se vira nas religiosas, outra paz nas famílias, outro exemplo nos sacerdotes, outra consciência nas almas, outra confiança e quietação nos moribundos.
Grande dom é esse da perseverança, e grandes os frutos dele; e assim necessita de muita graça e, por conseguinte, de valia também grande e poderosa para alcançá-la, qual é a Mãe da divina graça. Ela é a que nos cria aos peitos da sua devoção, e os seus peitos são torre para defender-nos dos inimigos: Ubera mea sicut turris[20]. Ela permaneceu imóvel, direta e segura, como coluna ao pé da Cruz: Stabat juxta Crucem[21]; quem dela se não desarrima, não mudará pé nas tribulações. Se vivêssemos no Paraíso terreal antes de interdito, quem jamais morreria, pois tinha à mão a árvore da vida com que sustentar-se? Pois graças a Deus que, estando nós na Igreja Católica, no Paraíso vivemos, onde Maria Santíssima é a árvore da vida, de que pende a Divina Graça, pois é seu fruto; colhamos sempre, e sempre viveremos.
Finalmente, quantos testemunhos há na Sagrada Escritura e nos Santos Padres que a Beatíssima Virgem foi de todas as criaturas a mais humilde; tantas provas há de que a devoção particular com essa Senhora é arte breve de preservar no bem; porque da sua conversação e trato se pega um tal modo de espírito de humildade que não põe a mira em edificar alto, senão ao comprido, rasteiro e bem assentado, como a Arca que salvou o mundo do dilúvio, que, tendo cinquenta côvados de largura e trezentos de comprimento, tinha só trinta de altura[22]. Essa obra é demais dura, e essa a que nos ensina a escrava humilde do Senhor, escolhida por Ele para sua Mãe: Melior est largus spiritu, quam altus spiritu[23]: Que tenhamos perseverança na oração, ainda que não tenhamos oração alta; que sejamos contínuos no obrar bem, ainda           que as obras não sejam admiráveis; que seja o procedimento igual, ainda que não seja seleto.
 
§ VII
 
Sexta. Porque uma das principais causas de desampararmos os exercícios da oração e vida espiritual é o vício da carne, inimigo tão doméstico, tão contínuo e tão geral, que, ou desvela e sobressalta a todos, ou a ninguém perdoa: Ego certe (testifica Sto. Anastácio Sinaíta) vidi viros centum annos natos, imbecilles, et toto fere trementes corpore, qui tamen non potuerunt abstinere a peccato carnali[24].Eu vi homens de cem anos, enfermiços e trêmulos em quase todo o corpo, que não se puderam abster dessa miséria. O remédio mais certo, ou por via de preservação, ou de cura, é uma sujeição leal e contínua à Mãe da Divina Graça; porque só a graça pode triunfar da natureza: mas com ser graça, é tão poderosa essa Senhora que parece a tem ao seu aceno. O mesmo é (assim o mostra a experiência) vermos um bem devoto da Virgem, um fiel pagador do seu Rosário, um observante do jejum nos seus sábados, que vermos logo um moço casto e honesto, a quem a Senhora vai ensinando a desviar-se de perigos, a temer-se de si próprio e a fugir para a sua sombra nas calmas ardentes da tentação. Como a Virgem é mística torre de marfim – Turris eburnea –, com o candor, e solidez e frieza, e limpeza da sua castidade excelentíssima, recolhe, ampara e defende como torre a todos os que para ela fogem; e o corpo que antes era barro frágil, e imundo, e inconstante, com a segurança dessa torre já parece ser também uma casa de marfim: Eburnea domus (disse Arnóbio) est corpus castum, in quo tinea non facit ullam libidinem peccati[25].
No capítulo 24 do Eclesiástico (que os sagrados intérpretes expõem todos da Virgem Santíssima Senhora Nossa), compara-se a mesma Senhora ao terebinto, árvore de grande copa e frescura: Ego quasi terebinthus extendi ramos meos, et rami mei honoris, et gratiae[26]: Eu, como o terebinto, estendi os meus ramos, que são de honra e graça. E para que saibamos a propriedade com que o Espírito Santo fala de sua Esposa Sacratíssima e o grande bem que nos deixou na sombra de seu amparo, é de advertir que essa árvore comunica refrigério contra os incentivos da concupiscência: Expandi ramos meus (diz o B. Alberto Magno) id est exempla operum ad umbrandum peccatoribus et refrigerandum contra incentiva vitiorum, et maxime contra aestum libidinis[27]. No caminho de Belém a Jerusalém, havia uma árvore dessas, a qual é fama que, passando por ali a Virgem com seu dulcíssimo Menino, a apresentá-lo no Templo, se lhe inclinou, fazendo como reverência. Os passageiros encalmados sempre ali sentiam fresco[28]. Pode ser que o Senhor, por memorial da Virgem, abençoasse essa planta e lhe comunicasse essa virtude. Porém, seja como for, sempre é certo que os que se valem da sombra da Virgem acham frescura da castidade, porque ramos tem para cobrir a todos, árvore tão feliz e bendita, que em seus ramos teve por fruto o Autor da natureza e da graça.
 
§ VIII
 
Sétima (e seja aqui a última). Porque por esse caminho da especial devoção com a soberana e amabilíssima Virgem foram todos os Santos e quantos até agora fizeram algum progresso na virtude; todos subiram pela escada branca, para que, não caindo da vermelha, lograssem a virtude do Sangue de Cristo. Esse argumento prova-se por indução de vários exemplos; tocaremos os que nos ocorrerem, que todos têm a impossibilidade que dizia Deus a Abraão: Numera stellas, si potes[29].
O cardeal S. Pedro Damião[30] escreve de seu irmão Marino, que, prostrando-se diante do altar da Virgem Santíssima, se lhe ofereceu de todo coração por escravo, tendo posto ao pescoço o seu cinto em lugar de argola: e ali se fez açoitar, para protestar a sua escravidão; e pagou certa soma de dinheiro por tributo, prometendo continuá-la todos os anos. A Senhora o veio consolar à hora da sua morte e assegurar que o seu nome estava escrito no livro da Vida.
O mesmo escreve Cesário de Valtério de Birbach[31], o qual também diante do altar da Senhora se lhe entregou por escravo, com corda ao pescoço e censo anual pago para maior decoro e riqueza do seu culto. E também em vida e morte recebeu da Senhora grandes favores.
Sto. Estevão, rei da Hungria[32], muito mais que desse real título se prezava do de escravo da Senhora; e ordenou que dali por diante a casa real se chamasse: A família da Virgem; e tanta reverência pegou a seus vassalos que não se atreviam a tomar na boca o augustíssimo nome de Maria, e só diziam absolutamente: A Grã-Senhora.
Carlos, filho de Sta. Brígida[33] (como nas suas revelações se refere), dizia no seu coração: Tanta consolação me causa que Deus ame a sua Mãe Santíssima mais que a todas as criaturas, que nenhum deleite há no mundo que eu de boamente não largasse, por não largar esse gozo; e quisera eternamente padecer as penas do Inferno, só porque Maria Santíssima não carecesse nem por um instante da sua dignidade, ou ficasse mais remota de Deus. Valeu-lhe essa devoção, porque, à hora da sua morte, a Senhora tomou essa alma debaixo do seu amparo e, tanto que arrancou, a levou a presentar em juízo, apesar dos demônios, que bramavam queixando-se como de injustiça de a não presentarem eles; e assim aquele réu, defendido por tão poderosa Advogada, saiu bem sentenciado pelo Supremo Juiz.
Sta. Margarida, infanta da Hungria[34], religiosa domínica, cada dia festivo de Nossa Senhora e de seus Oitavários, rezava devotamente mil vezes a Ave-Maria, com genuflexão a cada uma: outros tantos escudos teria para se cobrir das setas do comum inimigo: Mille clypei pendent ex ea[35].
O padre João de Trexo, as Companhia de Jesus, foi singular nesta matéria[36]. Ia a pé a uma ermida da Senhora; e havendo regado o chão com lágrimas, a varria com a boca e o rosto, e lhe dava muitos ósculos de consolação. Sendo-lhe encomendado pelos superiores um seminário de estudantes congregantes da Senhora, ardia em tanto zelo de que nenhum a desgostasse com pecados, que quase não dormia e ia pelas suas camas de noite, fazendo de joelhos oração fervente por cada um, na qual pedia não caísse em pecado, especialmente contra a pureza, por ser tão amada da Virgem.
Sto. Albérico, monge de Cister[37], foi mui sinalado na devoção da Senhora; e Ela aparecendo-lhe, lhe ordenou que mudasse a cor do hábito, de negra que era, em branca. E Crisóstomo Henriques diz que milagrosamente se lhe tornaram os hábitos brancos. Este servo do Senhor, ao expirar, disse: Sancta Maria ora pro me; e ao nomear esse dulcíssimo nome, olhos e rosto se lhe tornaram resplandecentes.
O padre Vincêncio Carafa, geral da Companhia[38], administrou em Nápoles a Confraria da Senhora com singular zelo e ardor de devoção, e a meteu especialmente nos corações dos nobres. Desde pequeno dizia cada dia, sete vezes, de joelhos, a oração: O Domina mea, etc. Trazia no pé uma argola de ferro em sinal de escravidão. Muitas vezes lhe apareceu a Senhora visivelmente.
O cardeal Alexandre de Ursinis[39] (família das mais ilustres de Roma e aparentada com sumos pontífices, e reis, e duques, e varões insignes na glória militar) assistia pontualmente a todas as obrigações dos confrades de Nossa Senhora, e, em companhia da gente plebeia, tomava disciplina. E em Branchiano, lugar vizinho a Roma, dos duques de Ursino, tinha dos seus vassalos levantado uma Confraria de Nossa Senhora, da qual ele era o prefeito e o pregador e o primeiro em todos os santos exercícios. Véspera da Assunção sempre tomava disciplina de sangue, para oferecê-lo à Virgem. Todos os dias se confessava e celebrava. Visitava os hospitais, lavava os pés aos pobres e lhes dava de comer por sua mão. Em dia da Assunção, que naquele ano (que foi o de 1626) caiu ao sábado, caiu ele na cama, e, no sábado seguinte, Oitava da Senhora, passou para o Senhor, com sinais de predestinado.
O padre Frei Domingos de Jesus Maria, carmelita descalço, foi tão devotamente apaixonado do amor e agrado da Beatíssima Virgem, que outros dois religiosos o viram, estático, estar em disputa com S. Bernardo sobre qual era mais seu devoto. E dizendo S. Bernardo que ele a amava mais[40], respondia Frei Domingos: Isso não; antes eu amo mais. E voltando-se para a Senhora, que mostrava estar presente naquela suspensão, requeria-lhe a seu favor e dizia, como menino: Pois se eu vos amo tanto, por que me não fareis vós, Senhora, o favor que fizestes a Bernardo, sabendo que necessito mais que ele? E os ditos religiosos viam que o servo de Deus Frei Domingos, elevado no ar, dava mostras que a Senhora enternecida o chegara a seus peitos e lhe dera leite deles, e que ele o chupava e engolia com inefável gozo.
O santo Hermano José costumava, em certos dias em que não seguia os atos de Comunidade, prostrar-se tão amiúde e com tanta detença, que um seu amigo de confiança lhe perguntou a causa[41]; e ele respondeu que pronunciava e adorava o Santíssimo nome de Maria, e que neste tempo sentia tal fragrância exalar da terra, como se todas as flores e rosas dela juntas se trabucassem e respirassem. E por isso folgava de pronunciar esse nome muitas vezes, e se detinha em beijar a terra.
Da devoção dos patriarcas S. Domingos e S. Filipe Néri não ajunto aqui as maravilhas, por serem tão sabidas e irmos de passagem. E concluo este parágrafo e toda a exortação dizendo aos meus leitores que, se nós temos ânimo de perseverar nos santos exercícios e fazer alguma chaça na virtude, o caminho mais certo, e mais lhano, e mais seguro, e mais frequentado, é pela devoção da Virgem. Ela é a escada branca por onde podemos esperar entrarmos no Céu, e que ali traremos por especial honra os soberanos nomes de Jesus e de Maria escritos na testa, para nunca jamais se apagarem, conforme aquilo do Apocalipse: Qui vicerit... scribam super eum nomen civitatis Dei mei novae Jerusalem, quae descendit de Coelo a Deo, et nomen meum novum[42].


[1] Bernardinus de Rustis., part. 9, séc. II, Assimil. 2.
[2] Apud Novarin, in Umbr. Virg., n. 992.
[3] Isai., VII, 14.
[4] I Timot., II, 5.
[5] S. Joan. Crisost., S. Epiphan., S. Ephrem, S. Basil. De Seleuc., et alii plures apud Marraccium in Polyanthea Marian. V. Mediatrix.
[6] Ps., XCIX, 2.
[7] Ps., CXVIII, 32. 
[8] Prov., XVII, 22.
[9] Matth., VI, 16.
[10] Ps., LXXXVI, 7.
[11] S. Cyril. Alexand., Epist. 34, tom. IV, o qual se achou no mesmo Concílio.
[12] Salazar in cap. 9, Prov., n. 144. Sherlogus, tom. III, in Cant., ver. 37, c. 7, n. 19. Celada de Esth. Figurata, § 387. Silveir.. tom. III, in Evang., lib. 5. cap. 35, q. 19, n. 139. Flores in cap. 24 Eccles., p. 4, n. 1 232.
[13] Caesarius, lib. 7, Miracul., cap. 4.
[14] S. Ambros., lib. 5, de Fde ad Gratian, c. 2.
[15] D. Bernard.
[16] S. Anselm., apud S. Antonin., p. 4, tit. 15, c. 14, § 7.
[17] Eccles., XXIV, 16.
[18] Isai., LXIV, 7.
[19] S. Bonavent., in Speculo.
[20] Cant., VIII, 10.
[21] Joan., XIX, 25.
[22] Gen., VI, 15.
[23] Eccl., VII, 9, juxta Hebr.
[24] Tom. 9, Bibliot. Patr., in lib. quaestion., q. 8.
[25] Arnob. in illud. Ps., XLIV. A domibus eburneis.
[26] Eccl., XXIV, 22.
[27] Alb. Mag. de laud. Virg., lib. 12, c. 6, § 16.
[28] Castil., no Devoto Peregrin., lib. 3, c. 10.
[29] Gen., XV, 5.
[30] Lib. 2, Epistolar., epist. 14.
[31] Lib. 7, Miracul., cap. 39.
[32] Surius in eius vit. die 20. Augustic., XI.
[33] Lib. 7, c. 13.
[34] Sirius ad diem, 28. Januar.
[35] Cant., IV, 4.
[36] Rho in histor. Virt., lib. 3. c. 3.
[37] Yepes, na Crónica de S. Bento Centur., 7.
[38] Nadasi in Anno dierum Societatis die 8. Junii.
[39] Balinguem in Kalend. Virg. die 22 Aug.
[40] Fr. António da Natividade, que foi grande amigo e companheiro deste servo de Deus, no Apêndice à Sua Vida, fol. 297.
[41] Novarin., in Umbra Virginea, n. 1124.
[42] Apoc., III, 12.
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