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Editora Pinus

Tratado de História Eclesiástica (Padre Rivaux) - Volume 1

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Tratado de História Eclesiástica (Padre Rivaux) - Volume 1

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Descrição Rápida

O livro contém 640 páginas. As suas primeiras páginas e o índice podem ser vistos neste link: http://www.slideshare.net/epinus/tratado-de-histria-eclesistica-volume-1



 

INTRODUÇÃO

 

 

 

 


A verdade é o mais precioso dom que Deus fez ao homem. Mas como o homem é incapaz de conservar por si só intacto esse rico tesouro e de defendê-lo dos numerosos inimigos, que incessantemente o atacam, a divina Providência velou sempre por ele de um modo especial.

A época dos patriarcas é incontestavelmente aquela em que a verdade deveu correr menos perigo sobre a terra. Desde Adão até Moisés houve apenas cinco gerações: Adão viveu cem anos com Matusalém; Matusalém seiscentos anos com Noé e noventa e oito com Sem; Sem conviveu por muito tempo com Abraão e Isaac; Isaac foi avô de Levi, eLevi o foi de Moisés, que viveu alguns anos com ele [1]. Ora, não parece que a tradição das verdades santas, que Adão tinha recebido do próprio Deus, podia facilmente chegar intacta e pura até Moisés, levada entre as mãos de cinco anciãos venerandos? Essa transmissão mostrava-se tanto mais fácil esegura que, únicos e pacíficos possuidores de toda a terra, convivendo somente com as suas famílias eentregues a trabalhos simples e inocentes, os patriarcas estavam infinitamente menos expostos ao influxo das paixões humanas, cujo sopro violento assola hoje o mundo e pro­cura dissipar, confundir e extinguir as verdades morais e sobrenaturais que lhes são tão opostas. Sabe-se também que, antes do dilúvio, todos os homens falavam uma só e mesma língua e que a revelação primitiva era quase a única história que tinham de aprender e de ensinar a seus fi­lhos.

E, todavia, para conservar a verdade, Deus não se fiou totalmente na reminiscência, na retidão e nas luzes dos pa­triarcas nem na evidência dos princípios, aliás, pouco nu­merosos, da lei natural. Ele mesmo desceu, para assim di­zer, ao meio desses santos patriarcas. Foi ele que prin­cipiou por cometer o precioso depósito à fidelidade de Adão, vindo falar com ele. Depois falou várias vezes a Noé e teve tanta intimidade com Abraão que este patriarca instava de alguma sorte com ele para que acedesse aos seus pedidos, diz S. João Crisóstomo, como se insta com um amigo [2]. Enquanto assim os conduzia pela mão e os conservava com as suas famílias na santa interpretação e fiel observância de sua lei, mandava de tempos em tempos castigos, a fim de operar o mesmo efeito entre os outros homens. O anátema de Caim, a sua vida errante, o dilúvio universal, a confusão das línguas na torre de Babel, a des­truição de Sodoma e de Gomorra, etc. foram as punições que o Todo-Poderoso infligiu aos transgressores de seus pre­ceitos divinos.

Mais tarde, quando os homens se tinham multiplicado, quando as paixões começaram a dominar na terra e quando, como se exprime a Sagrada Escritura, “toda a carne tinha corrompido os seus caminhos”, Deus apressou-se, para assim dizer, em pôr a verdade a coberto de todo o perigo. Então é que ele chama a Abraão, separa-o dos mais ho­mens e o faz pai de um povo, que ele separa também de todos os outros povos e que destina a guardar fielmente a fé antiga dos patriarcas. Nesse intuito prescreve-lhe prá­ticas particulares, observâncias especiais, e dá-lhe um có­digo completo, que tinha por fim preservá-lo de todo contato perigoso com as nações que se afastavam das verdades reveladas. Não se limitou a isso. Ele mesmo tomou o regi­me e a direção da nação. Moisés, Josué e os juízes não foram, por espaço de mais de trezentos anos, senão os seus lugares-tenentes; e o tabernáculo era como a tenda ou o pa­lácio, onde esses chefes subalternos iam receber as ordens do primeiro e verdadeiro soberano. Esse governo puramente teocrático, de uma autoridade evidentemente infalível, e cujos atos pela maior parte foram grandes milagres, durou perto de quatrocentos anos.

 

Nessa época, pedia o povo de Deus um rei, como os mais povos. Obteve-o, e esse novo governo subsistiu até ao tempo de Jesus Cristo. Mas, ainda que o Senhor tivesse abdicado de alguma sorte a autoridade temporal, vigiou sem­pre o precioso depósito da verdade e nunca o deixou à mercê do povo judaico. Porquanto conservou ainda debaixo da sua dependência os chefes da nação; os reis não foram, para assim dizer, mais que súditos seus; nomeava-os à sua von­tade e, quando violavam a sua lei, depunha-os como a Saul ou castigava-os e ao seu povo com calamidades, que os fa­ziam voltar ao caminho da verdade. Além disso, instituiu-se um tribunal especial para velar pela conservação do depó­sito sagrado. Ademais, foi exatamente nessa época que começaram a aparecer os profetas. Houve, diz Bossuet, uma série não-interrompida de grandes ou pequenos que, longe de aderir aos errosdo povo, quando se extraviava, ou de os encobrir, se lhes opunham com toda a força. Era tão contínua essa sucessão que o Espírito Santo diz que Deus lhes dirigia frequentemente a sua palavra por meio de seus profetas, levantando-se de noite e admoestando-os todos os dias [3]; expressões as mais enérgicas que se podem imagi­nar, para mostrar que a verdadeira fé nunca deixou de ser publicada nem o povo que a conservava de ser adver­tido por Deus. Esses profetas pertenciam ao povo escolhido; confirmavam a sua missão com numerosos milagres e man­tinham no dever e na verdade uma grande parte dos sacer­dotes e do mesmo povo; e quanto mais a impiedade parecia dominar, mais Deus fazia resplandecer o poder de seus en­viados e mais meios de instrução e salvação subministrava.

Desde o cativeiro de Babilônia até Jesus Cristo, não houve idolatria pública e duradoura. É verdade, sabe­mos, que sobreveio uma perseguição durante o reinado de Antíoco IV,chamado Epifânio ou o Ilustre; mas tam­bém não ignoramos o zelo de Matatias e o grande nú­mero de verdadeiros fiéis, que se agregaram à sua família, e as brilhantes vitórias de Judas Macabeu e de seus irmãos. Em todo o tempo do seu governo e do de seus sucessores até Jesus Cristo, subsistiu a profissão da ver­dadeira fé. Por último, os fariseus introduziam na re­ligião e no culto numerosas superstições. Como a corrupção ia prevalecer, Jesus Cristo apareceu no mundo. Até en­tão, a religião havia-se conservado. É verdade que os doutores da lei possuíam muitas máximas e práticas per­niciosas, que se propagavam pouco a pouco, mas elas não tinham sido ainda recebidas como dogma da sinagoga [4]. Por isso é que Jesus Cristo dizia também: “Sobre a ca­deira de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus; fazei tudo quanto eles vos disserem; porém não obreis se­gundo a prática das suas ações”[5]. Ele não cessou de hon­rar o ministério dos sacerdotes; enviou-lhes os leprosos, nos termos da lei; frequentou o templo e, repreendendo os abu­sos, foi sempre dedicado ao povo de Deus e ao culto públi­co. Finalmente, chegou-se ao estado de decadência e de reprovação do antigo povo, designado pelas Escrituras e pelos profetas, quando a sinagoga condenou Jesus Cristo e a sua doutrina. Mas então Jesus Cristo tinha aparecido e começado na sinagoga a reunir a sua Igreja, que devia subsistir eternamente [6].

 

“Deus, diz o grande Apóstolo, tendo falado muitas vezes e de muitos modos noutro tempo pelos profetas, ulti­mamente nestes dias nos falou pelo seu próprio Filho.” “O Verbo se fez carne, diz S. João; e habitou entre nós: e nós o vimos; era cheio de graça e de verdade”[7]. Veio ao mundo num estábulo, “porque não havia lugar para seus pais na estalagem”. A riqueza do Redentor dos homens consistiu num presépio, numa pouca de palha e em alguns panos. Vivendo por espaço de trinta anos, na loja de um pobre artista, ensinou aos homens, com o seu exemplo, a humildade, a obediência, o trabalho, o desprezo das coisas terrenas, a resignação e a abnegação. Que ensino de sublime sabedoria! Era o orgulho e a ambição que tinham feito o ho­mem criminoso e desgraçado; é na humildade e abnegação que devia achar-se o remédio aos seus males. “A perfeição da humildade, diz um autor, expiou o excesso do orgu­lho.”

Jesus Cristo pregou depois o seu Santo Evangelho; re­velou à terra por espaço de três anos os segredos que ele via desde toda a eternidade no seio de seu Pai. Percorreu a Judeia e encheu-a de benefícios. Caritativo para com todos, misericordioso para com os pecadores, de quem se mostrou o verdadeiro médico, era dotado de uma autoridade e bon­dade que nunca tinham aparecido senão em sua pessoa. Foi amigo dos pobres, mas não desprezou os ricos. Anunciou altos mistérios, mas confirmou-os com estrondosos mi­lagres. Prescreveu grandes virtudes, mas dava ao mesmo tempo grandes instruções, grandes exemplos e liberalizava grandes favores. Tudo atesta a divindade da sua pessoa: a sua vida, a sua doutrina, os seus milagres, a mesma ver­dade que nele resplandeceu por toda a parte, tudo concor­reu para que o reconhecessem como supremo Senhor e mo­delo de perfeição. E só Ele, no meio dos homens e diante de seus inimigos, pôde dizer: “Qual de vós me arguirá de pecado?”. E também: “Eu sou a luz do mundo”[8].

A sua penúria aumenta à medida que se elevam as suas funções: “As raposas têm o seu covil e as aves do céu o seu ninho; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar acabeça”. Pobre até o fim, recebe da caridade o pão que o sustenta, os vestidos que o cobrem e a mortalha em que o envolvem. Sofreu as maiores dores sem fraqueza e sem ostentação e morreu orando pelos seus inimigos e aben­çoando os seus algozes. Numa palavra, a sua morte foi mi­lagrosa e inteiramente divina como a sua vida. Seus pró­prios inimigos o declararam: “Na verdade este Homem era Filho de Deus”. Diziam eles, postados em volta da sua cruz: Vere Filius Dei erat iste [9]; e os mais ímpios filósofos não puderam deixar de reconhecê-lo. “Se a vida e amorte de Sócrates são as de um sábio, diz J. J. Rousseau, a vida e a morte de Jesus Cristo são as de um Deus.” Quando morreu, a natureza cobriu-se de luto. Três dias de­pois da sua morte, ressuscitou por sua própria virtude; equarenta dias depois da sua ressurreição, subiu ao céu, de onde intercede por nós.

Contudo, o precioso depósito da verdade, guardado até ali pelo mesmo Deus, e agora enriquecido, desenvolvido por Jesus Cristo e regado com o seu divino sangue, mais que nunca necessitava de não ser abandonado à mercê dos ho­mens e ao furor das paixões cada vez mais temíveis. Deus, os profetas e Jesus Cristo tinham falado sempre ao homem uma linguagem exterior esensível, porque a sua natureza e as suas necessidades exigem esse modo de ensi­no. Depois da morte do Salvador, a sua doutrina devia, pois, continuar a tomar uma forma visível; convinha que ela fosse confiada ainda a enviados, que falassem e ensi­nassem, como Ele, de uma maneira sensível. É por isso, como já observamos com Bossuet, que Jesus Cristo, mesmo no meio da sinagoga, tinha tido o cuidado de fundar a sua Igreja pelo chamamento de doze pescadores. Havia-lhes dado por chefe Simão Pedro, com uma prerrogativa tão manifesta que os Evangelistas, na enumeração que fazem dos Apósto­los, não seguem ordem certa, são todos concordes em desi­gnar Pedro como o primeiro de todos os outros. Depois, antes de subir ao céu, Jesus Cristo convocou esse sacro colégio, que o devia substituir neste mundo, e disse-lhe: “Assim como o Pai me enviou a mim, também eu vos envio avós: foi-me dado todo o poder no céu ena terra: ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura; ensi­nai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e estai certos de que eu sou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”. Pala­vras dignas do esposo celeste, diz Bossuet, que dá o seu po­der e empenha para sempre a sua fé à sua santa Igreja. De onde se segue que a Igreja não é para assim dizer, senão Jesus Cristo, falando e ensinando continuamente de­baixo de uma forma humana. “É, diz Moelher, como a encarnação permanente do Filho de Deus.” Assim como em Jesus Cristo, a divindade e a humanidade, ainda que distintas entre si, estavam estreitamente unidas, assim também a Igreja, sua manifestação permanente, tem um lado divino e um lado humano. Humana quanto aos homens que a compõem e divina quanto ao Espírito de Deus, que a anima e a governa, a Igreja está agora encarregada do depósito da verdade até o fim do mundo [10]. Como o seu divino esposo, ela deve esclarecer, ensinar, consolar e con­duzir o homem pelo caminho da virtude. Fiel à sua mis­são, esclarece, consola, ensina o mundo, fazendo sempre bem, a exemplo de Jesus Cristo; e desde há dezoito séculos alivia todas as dores que pesam sobre a humanidade. Mas os seus benefícios são negados, e o mundo tem-lhe respondido sempre com a maior ingratidão. Nunca a Igreja de Jesus Cristo deixou de ser caluniada, atacada e perseguida em toda parte. Esse último fato completa a sua semelhança com seu divino autor, de quem se disse: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam... Está posto para ser alvo de contradição...”. In propria venit et sui eum non receperunt... Positus est hic signum cui contradicetur.

 

Neste Tratado de História, vamos contemplar a Igreja, cumprindo, através das idades, a missão que Deus lhe deu, deensinar a verdade e de fazer bem. Filha do céu, recebeu e contém em si cinco caracteres que proclamam sua celeste origem: é una, santa, católica, apostólica, romana. O inferno tem empregado os maiores e mais repetidos es­forços para lhe roubar esses sinais divinos; mas não pôde consegui-lo nunca. Depois de decorridos dezoito séculos, em que a perseguição foi contínua, eles brilham mais do que nunca sobre sua fronte. Os fatos, os monumentos, os teste­munhos escritos e todo esse tempo provam unânime e irrefragavelmente, durante dezoito séculos, que a Igreja foi sempre una, santa, católica, apostólica, romana, ou, por outros termos, que foi sempre divina e a verdadeira esposa de Jesus Cristo. É esse o belo e consolador espetáculo que vamos acompanhar e contemplar. Partindo do cenáculo, berço da Igreja, e descendo com ela os séculos um a um, seguiremos, sem espírito de sistema, o curso natural e pro­videncial das coisas e do tempo. Para alumiar, orientar e suavizar o longo caminho que temos de percorrer, poremos ao lado da narração dos principais sucessos a sua data. Após cada século, haverá como uma pausa; e em seguida a cada grande época uma verdadeira parada, com uma recapitulação de todos os fatos estudados e as conclusões e ob­servações que deles dimanam. Além disso, cada aconte­cimento importante será acompanhado das reflexões ou discussão que ele admitir, quer contenha uma prova em favor da Igreja, quer tentassem empregá-lo como objeção contra ela. Agrupando, quanto possível, os fatos, para os não isolar ou separar demasiado, evitaremos porém inverter a ordem cronológica. A ação tão admirável e tão contínua da divina Providência a favor da Igreja será da nossa parte o objeto da maior atenção.

 

O tempo que tem durado a Igreja, desde Jesus Cristo até os nossos dias, divide-se em três grandes períodos, que representam as três principais fases do cristianismo, e cada um dos quais enche um volume. No primeiro período, que acaba na época do império do Ocidente, em 476, vemos o começo, os combates, os trabalhos, o ensino, e toda a ação da Igreja no meio do mundo romano, e sobressair a per­feita conformidade que existe entre a nossa fé e a fé dos primeiros séculos. No segundo período, que se estende desde a queda do império do Ocidente até o aparecimento do protestantismo, em 1517, admiramos a maravilhosa ação da Igreja sobre os povos bárbaros que ela converte, educa, dirige e faz passar do estado selvagem para a bela civilização do século de Leão X. No terceiro período, que se estende desde o começo do protestantismo até o ano de 1875, contemplaremos a Igreja lutando contra a anarquia religiosa e contra a anarquia política, saídas dos princípios da pretendida reforma, e conservando a civilização moderna, que esse duplo flagelo põe em perigo. Uma época tem seu tronco de onde brotou assim como o homem tem seus avós.

Digne-se o Senhor abençoar a nossa obra e permitir que ela contribua para fazer conhecer melhor e amar ainda mais a sua Igreja, nossa mãe comum! É essa a nossa única ambição. “Não se tem Deus por pai, diz S. Cipriano, em seu tratado da Unidadeda Igreja, quando se não tem a Igreja por mãe.”

Se nossa coragem tendesse a ser abalada à vista das cruéis provações por que está passando a Igreja, e ainda das mais cruéis que parecem ameaçá-la, deveríamos lembrar-nos de que é essa a sua sorte constante e como que um pode­roso elemento para a sua sustentação. Esposa do Salvador, ela deve ser a primeira a seguir o caminho da cruz, que o Filho de Deus abriu e que todos os santos trilharam uns após outros. Mãe dos cristãos, o sofrimento é para ela, assim como para cada um dos seus filhos tomados individual­mente, o meio de conseguir a salvação. Nonne oportuit Christum pati et ita intrare in gloriam? A Igreja foi in­abalável através de dezoito séculos de perseguição; porque o não será em face das contemporâneas tempestades? Nossos pais não desanimaram nos lances das provações passadas. No meio de tantas dúvidas, tinham fé; no meio de tantos desesperos, esperavam; no meio de tantos ódios, amavam. Façamos como eles e ergamos a cabeça. Eu ouço vo­zes inimigas e impacientes clamar: “Não chegará um dia em que se possa dizer: Eis o último Papa!”.Sim, mas esse dia vós não o vereis; só chegará no fim dos tempos, quando Jesus Cristo aparecer para julgar os vivos e os mortos. Então ele já não precisará de um representante visível na terra; então terá acabado de sofrer na pessoa de seu último vigário tudo quanto tinha de sofrer neste mundo. Quanto a nós, que não sabemos o dia nem a hora; quanto a nós, que no pó do combate vemos o Cristo encetar no seu re­presentante atual um novo Caminho da cruz, sigamo-lo com amor e fé, repetindo este brado de dolorosa admiração, pelo qual a liturgia grega interrompe algumas vezes na sexta-feira santa a solene leitura da Paixão: “Glorificada seja a vossa paciência, Senhor! [11].



1. Mem. da Academ. das inscrições, t. LXI. Ensaio sobre a indif., t. IV. Rohrbacher, Hist. da Igreja, t. I.

2. As tradições orientais e o Apóstolo S. Tiago dão a Abraão o glorioso epíteto de Amigo de Deus: Abraham amicus Dei appellatus est. S. Tiago, II, 23; Rohrbacher, I.

 3. Mittebat autem Deus patrum suorum ad illos per manum nuntiorum suorum, de nocte consurgens et quotidie commonens. (Paralip. liv. 2, cap. 36, v. 15).

4. Pelo contrário, entre todas as outras nações, a lei natural e a revelação primitiva naufragaram tristemente. Em toda a superfície do globo, diz Riambourg, era a nação judaica a única que proclamava a unidade de Deus; que recusava a toda criatura, até aos anjos, o di­reito de participar das honras divinas; que teve ideias razoáveis a res­peito da criação; que compreendeu a necessidade do culto interno; que rendeu à Divindade um culto externo irrepreensível, etc. Todas as outras nações, até as mais instruídas, tinham se afastado da direção primitiva. É verdade que nas suas tradições apareciam ainda vestígios das verdades reveladas, mas horrivelmente desfiguradas. “Nessas nações tudo era Deus, diz Bossuet, exceto o mesmo Deus.” Expulsaram Deus dos seus altares, acrescenta Nicolau, e puseram em seu lugar tudo quanto há de mais criminoso e repugnante. A única exceção digna de se notar, que aqui apresenta a nação judaica, mostra bem a necessidade da intervenção divina para a conservação da ver­dade na terra. (Rollin, Tratado dos Estudos. Pluché, História do Céu. Riambourg, Rat, e trad.).

5. S. Mat., cap. XXIII, v. 2, 3.

 6. Bossuet, Conf. com Cláudio.

7. Epíst. aos Hebr., cap. I, v. 1, 2. – S. João, cap. I, v. 14.

8. Bossuet, Hist. Univ.

 9. S. Mat., cap. 27, v. 54.

10. Fora da Igreja Católica, a verdade evangélica teve a sorte que havia tido a revelação primitiva fora do povo judaico. Foi dividi­da, confundida e horrivelmente desfigurada em todos os seus diversos pontos. Os milhares de hereges que têm aparecido há dezoito séculos foram tão versáteis, tão discordes e opostos uns aos outros como o foram entre si os filósofos pagãos. Disseram sim e não a todas as questões, a respeito da revelação, assim como os primeiros o tinham feito a todas as questões sobre a lei natural. A história das aberrações e das contradições da heresia é talvez até mais longa e deplorável que a da filosofia. “Todo erro, diz Bossuet, é uma verdade de que se abusou”. Ora, tendo sido o depósito da verdade aumentado e completado por Jesus Cristo, é evidente que os estragos dos novos racionalistas deveram sobrepujar os de seus antecessores. Ademais, todo o mundo sabe que os sublimes e profundos mistérios do Evangelho são menos acessíveis à razão humana que os princípios da lei natural. As paixões, sempre inimigas da verdade, vão também aumentando à proporção que os homens se multiplicam, etc. Todos esses desvarios da razão humana mostram o motivo por que Pascal dizia: “Escarnecer a filosofia é verdadeiramente filosofar”. Logo é necessária hoje, mais que nunca, uma autoridade infalível para a conservação do de­pósito sagrado.

11. A via dolorosa dos Papas. (O Mundo, número de 15 de setembro de 1860).

 

 

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